Já em funcionamento em alguns sites, como o YouTube, o novo IPv6, que vai substituir versão anterior do protocolo de internet, o IPv4, permitirá ampliar as possibilidades de acesso à rede mundial de computadores de uma maneira sem precedentes. A mudança deve ocorrer não apenas em razão da melhoria de recursos, tais como de segurança e transmissão de dados, mas por outra, de caráter mais prático, que é o fim do estoque de endereços IPv4, anunciado em janeiro. A substituição, há muito aguardada pelas empresas, vem sendo comemorada.
De acordo com Antônio Moreiras, gerente de projetos do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), entidade ligada ao CGI.br, que administra a internet no Brasil, a principal e mais profunda mudança com o IPv6 é a quantidade de endereços de internet disponíveis. O NIC.br diz que, enquanto o IPv4 tinha 4 bilhões de endereços disponíveis, a nova versão permite, teoricamente – por se tratar de uma projeção matemática –, um número de 340 undecilhões de endereços.
A quantidade é, de fato, abstrata demais, mas Moreiras ilustra: se a quantidade de endereços IP permitidos pelo IPv6 fosse dividida pelos metros quadrados da Terra, existiriam mais IPs por metro quadrado do que a quantidade estimada de estrelas no Universo. A implicação prática disso, segundo o executivo, é a possibilidade de conexões diretas entre computadores, ampliando de maneira inimaginável o número de conexões fim a fim, as chamadas redes ponto a ponto (P2P). "Será a internet das coisas", categoriza Moreiras, argumentando que o IPv6 permitirá que praticamente qualquer aparelho, eletrodoméstico, automóvel etc., acesse a internet se preparado para isso. Para ele, o IPv6 vai antecipar, em muito, a era dos aparelhos inteligentes, com capacidade de processamento própria e conectados à web.
Yuri Menck, diretor de marketing corporativo da Global Crossing, uma das provedoras de internet que já fornece o IPv6, avaliza a projeção do NIC.br e acrescenta que, como agora as máquinas se conectarão diretamente, sem as interrupções típicas do IPv4, a criação de ambientes sociais colaborativos poderá ser acelerada. O diretor de produtos de internet da Global Crossing, Orlando Neves, explica que "é como se deixássemos de ser casas para ser pessoas". Ele afirma que agora a conexão vai ser "mais natural". "Antes, era como se entre nós tivesse um tradutor e, de repente, começássemos a falar a mesma língua", explica o executivo, para quem o IPv6 trará inúmeros benefícios.
Menck acredita que o fim do IPv4 pode, inclusive, melhorar o aproveitamento das conexões de internet. Segundo ele, a quarta versão dos endereços de IP foi desenhada apenas para comunicação e foram sendo adicionadas "camadas", conforme o desenvolvimento tecnológico e as demandas dos usuários por segurança nas redes, ou o envio de mensagens para vários destinatários diferentes (multitasking), por exemplo. Por conta desse sistema emaranhado, os computadores gastam parte de seu processamento para conseguir acessar os endereços.
O IPv6, segundo Menk, já foi desenvolvido com essas aplicações de forma nativa, o que significa que reduz a exigência de processamento dos computadores. Neves faz um paralelo com as transformações do sistema postal. "Antes, os endereços contavam apenas com o nome da rua e o número das casas, mas com a expansão populacional foi criado o Cep para tornar a entrega mais rápida e permitir entregar outros tipos de coisas."
Barreiras técnicas e culturais
Apesar dos benefícios indiscutíveis, o Brasil está atrasado em relação a outros países quanto à adoção do IPv6. Entre os empecilhos, são citados problemas técnicos, no que tange o desenvolvimento de redes e equipamentos, e culturais, devido a um certo conservadorismo dos provedores de internet. Para o coordenador de planejamento de engenharia da provedora Algar Telecom (ex-CTBC), Alexandre Campos, há um problema físico, relacionado ao formato do IPv6. Ele explica que o novo formato é hexadecimal (com 16 níveis diferentes), enquanto a versão anterior é decimal (dez níveis), e isso influi diretamente no processo da construção técnica das redes. Assim, para implantar o novo IP, as empresas precisam investir no treinamento de funcionários e na compra de equipamentos que já estejam habilitados para o novo protocolo.
Campos ainda critica os provedores de internet, que, segundo ele, são os maiores interessados em migrar logo para o IPv6, mas que ainda não demonstram grande preocupação com essa transição, o que acaba por atrasar o mercado como um todo. "Se a adoção daqueles que deveriam ser os maiores interessados é baixa, então ninguém está preocupado", ataca.
O presidente da Associação Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet (Abranet), Eduardo Parajo, sustenta que a maioria dos profissionais envolvidos já começou a ser treinada e a estudar o assunto. Contudo, ele reconhece a demora das empresas do setor, e reconhece que a adoção do IPv6 "está acontecendo, talvez não tão rápido quanto gostaria, mas tudo vai se encaminhar da melhor forma possível".
Para Orlando Neves, da Global Crossing, o problema decorre de uma mistura entre a cultura da acomodação e ao mesmo tempo conservadora das empresas. Ele, porém, acredita que basta quebrar a barreira, que depois tudo caminha naturalmente, como quando os primeiros computadores começaram a chegar aos escritórios. "Foi custoso, mas depois que começam a usar, gostam.
O crescimento do uso [do IPv6] será muito rápido", avalia.
Menck, também da Global Crossing, prefere não apontar culpados e usa como justificativa para o atraso a realidade do mercado corporativo. Segundo ele, qualquer mudança que se vai fazer numa rede acarreta na interrupção da produção, e sempre deve ser medido o impacto financeiro das alterações. "Como esse tipo de mudança não envolve ganhos diretos de receita, as companhias acabam por resistir." Para Menck, a mudança para o IPv6 acontecerá por meio de um processo que ele de chama de "gatilho". Ele acredita que as empresas com uma grande massa de clientes é que acharão novas fontes de receita, e a partir do momento em que a adoção começar, não vai mais parar.
*Fonte: www.tiinside.com.br
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